Nas estacas, fotos das vítimas que perderam a vida para o crime, entre elas a da jornalista Vanessa Ricarte
Com cruzes fincadas em canteiro da avenida Afonso Pena, mulheres se juntaram para pedir o fim do feminicídio e o direito de existir, trabalhar e amar sem opressão ou medo. Ao todo, 35 pessoas participaram do ato no cruzamento da avenida com a Rua 25 de dezembro. Nas cruzes, fotos de mulheres que perderam a vida para o crime, entre elas a da jornalista Vanessa Ricarte e da empresária Mirieli Santos, assassinadas em fevereiro.
A ação, feita no dia das mulheres, é um lembrete da luta que o gênero trava diariamente e os direitos que são esquecidos. A antropóloga Priscila Anzoategui destaca que o objetivo é transformar a angústia em força.
“Vamos marchar em repúdio a todas as mulheres vítimas do feminicídio. Em menos de três meses 8 mulheres já foram assassinadas. Entre elas três eram indígenas e essa pauta também tem que ter visibilidade”.

Segundo ela, a Casa da Mulher Indígena que será construída em Dourados não pode ficar com a administração exclusiva da gestão municipal. “O relatório que elaboramos sobre a Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande com várias recomendações tem que ser utilizado como alerta para outras casas”.
O Relatório de 300 páginas foi feito em 2020 e já apontava falhas e a necessidade de melhorias na rede de atendimento às mulheres no local. O documento foi elaborado por cinco pesquisadoras. Saiba mais sobre o assunto aqui.
Maria Cristina Ataíde, membro do MCRIA (Fórum Permanente Pela Vida das Mulheres e Crianças de Mato Grosso do Sul) ressalta que as cruzes e ver como as mulheres tiveram a vida ceifada entristece demais.

“Você fica assim indignada é uma rede e um monte de gente ganhando dinheiro dizendo que estão aprimorando as políticas para as mulheres. Até quando? É preciso que todas as mulheres digam chega e se juntem, se fortaleçam e cobrem das instituições para que elas funcionem”, disse. Maria acrescenta que as vítimas e as famílias têm que ter voz.
Ela frisa que durante a inauguração da 4ª Vara de Violência Doméstica contra a Mulher, realizada nesta sexta-feira (7), em Campo Grande, mulheres foram impedidas de entrar no prédio por estarem com cartazes de protesto.
Além da jornalista Vanessa Ricarte e da empresária Mirieli Santos, as cruzes pediam justiça por Juliana Dominguez, que faleceu no dia 18 de fevereiro, Emiliana Mendes, dia 24 de Karina Corim 04 de fevereiro, Aline rodrigues, dia 1º de fevereiro, Gabriela Araujo Barbosa, dia 10 de fevereiro e Gisele Cristina, dia 1º de março.

“Esse dia é importante, mas acho que a gente tem que ter a consciência e a clareza de que todos os dias são dias de luta. Vivemos em um País que mata mulheres todos os dias. Não é fácil ser mulher nesse aqui, é muito machismo e descaso mesmo com todas as leis, vemos o que está acontecendo em Mato Grosso do Sul. É uma data de comemoração mas a luta é diária dessas mulheres que sofrem caladas, que têm medo do machismo estrutural que vivemos”.
Adriane Quilombola é uma das sobreviventes da violência doméstica. Ela estava presente no ato na Avenida e ressalta que os homens precisam deixar as mulheres existirem.
“Aprendi que a gente tem que lutar para sobreviver. é muito difícil quando você vê as políticas para as mulheres sendo destruídas e desmontadas a cada ano que passa. Quando você leva uma mulher e se negam a registrar um boletim de ocorrência estimulam a mulher a não registrar questionando quem vai pagar a pensão ou ‘você tem certeza que quer seu marido preso?”.

Para ela isso mostra que é necessário atos de protesto que mostrem que a vida das mulheres têm valor.
“É um ato de vida e pela vida das mulheres. É necessário dizer que queremos viver, trabalhar e existir porque quem carrega as finanças de nossas casas somos nós, nós que educamos e carregamos a economia. Para isso nós servimos mas quando precisamos não somos atendidas”.
